
Há oito anos, aconteceu um evento em frente a uma loja chamada Rock Mania, em Dourados. Eu estava lá, adolescente, perdido na multidão e no som alto. Aquele show foi apenas um de vários que fui naquela época, uma fase marcante da minha vida. Não era só sobre música ou eventos, mas também sobre as pessoas que conheci. Amigos, conversas madrugada adentro, risadas e até alguns tropeços. Além de me divertir, vivi experiências boas e outras nem tanto, mas cada uma delas ajudou a construir quem eu sou hoje.
Dourados é uma cidade onde as rádios tocam principalmente sertanejo, pagode e outros estilos mais populares. Tem também pop, músicas antigas e atuais, umas dançantes, outras românticas. Rock, porém, é raro. Quando toca, são só as bandas mais conhecidas, nada de rock pesado. Por isso, quando eu era criança, eu gostava de ouvir rádio mais à noite, quando rolavam músicas pop, ou aos domingos, com aqueles flashbacks de músicas antigas. Meu gosto pelo rock veio no começo da adolescência. Eu comprava CDs de bandas que ouvia falar, curioso pra descobrir o que aquele som tinha de diferente.

Quando surgiu o Orkut, a primeira rede social que eu usei na internet, comecei a conhecer e conversar com pessoas da minha cidade que também gostavam de rock. Foi uma surpresa descobrir que havia eventos de rock em Dourados, pois eu não fazia ideia de que tantas pessoas por aqui curtiam o estilo. Nas comunidades do Orkut, a gente conversava, trocava informações sobre shows e eventos, e compartilhava imagens do que rolava na cidade. A maior delas era a Dourados Rock and Roll, que na época chegou a ter mais de mil membros.
O primeiro evento que fui era um concurso de bandas e cantores de vários estilos. Esse concurso aconteceu no Parque Jorge Antônio Salomão. No Orkut, eu conheci a vocalista da banda Dogma, que me convidou para o evento, e lembro que na apresentação ela cantou a música What’s Up, da banda 4 Non Blondes. Outra banda de rock que se apresentou naquele dia foi a 200ml.


No dia 21 de outubro de 2006, aconteceu o evento Dourados Underground. Foi o primeiro show de rock que eu fui, já que o evento anterior tinha sido uma apresentação de duas bandas num concurso. Esse show era só com bandas de metal pesado. Fui caminhando até o Bloco dos Sakudos. Apresentaram-se Exterminate Messiah, Coró de Cova e outras bandas. Lembro que não tinha camiseta preta, então peguei uma camiseta branca e tingi de preto. O local era a céu aberto, as bandas tocaram numa varanda e o público ficou num gramado.



No dia 26 de novembro de 2006, aconteceu a Mostra de Cultura Punk. Foi o primeiro de alguns eventos que eu fui na UFGD. Primeiro, foi exibido o documentário ‘Botinada: A Origem do Punk no Brasil’ na sala de vídeo. Depois, teve o show. Naquele dia, tocaram algumas bandas punks, mas a que eu mais curti foi o Pantanu. Nos vídeos, eu até apareço a maior parte do tempo ao lado direito das caixas de som. Até antes do show, eu era muito tímido e tinha vergonha de dançar, mas durante o show teve um momento em que o rock tomou conta de mim e eu comecei a dançar loucamente no ritmo da música.
Lembro que naquele mesmo dia teve a apresentação do coral da igreja que meu avô frequentava na época. Eu tive que escolher entre ir à apresentação do coral ou ao show. Se tivesse ido ver o coral, certamente minha vida hoje não seria a mesma. Conheci muitas pessoas naquele dia. Hoje eu penso que escolhi bem, já que até meu avô, alguns anos depois, parou de ir a essa igreja, quando ele descobriu algumas coisas ruins sobre a igreja que o fez abandoná-la.

No dia 13 de dezembro de 2006, eu fui até o Bar do Marrom, que era um lugar frequentado pelos fãs de rock da cidade. Encontrei algumas pessoas que conheci no Orkut. Fui poucas vezes nesse bar, conhecido como Bar dos Universitários. Ele ficava na esquina da Av. Marcelino Pires com a Rua Albino Torraca, e próximo a ele ficava a Luxor El Rancho, na Rua Quintino Bocaiúva. Depois, naquela noite, fomos até o Alquimia Bar, onde aconteceu o Rock Solidário. Foi a única vez que fui lá. Lembro que tocou a banda Los Bandoleiros, do vocalista Cacá, e teve a participação do Igor, do grupo de rap Fase Terminal. O objetivo do show era arrecadar brinquedos para crianças carentes.


Vários eventos aconteceram no começo de 2007. No dia 27 de janeiro, há oito anos, aconteceu um grande evento em frente à loja Rock Mania. Foi na sua antiga unidade, que ficava na Rua Oliveira Marques, próxima à Rua João Cândido da Câmara. Tocaram as bandas Pantanu, Atropelo, Coró de Cova e Espectros Quasar. Esse show foi gratuito, na rua, e contou com um grande público. No dia 16 de fevereiro, aconteceu o Brutal Metal Attack. Nesse dia, o Pantanu tocou sem seus trajes característicos. O evento foi na Luxor El Rancho. No dia 16 de março, aconteceu mais uma edição desse evento.


Antes da segunda edição do Brutal Metal Attack, no dia 1 de março, houve uma celebração. Foi um evento simples, organizado pelo poeta Emmanuel Marinho, em frente à UFGD, na Rua João Rosa Góes. Alguns artistas como músicos e poetas participaram. Lembro da banda Dogma, que estava com uma vocalista diferente. Naquela noite, eu estava com alguns amigos. Depois do evento, saímos e fomos até a Usina Velha. Eu fui poucas vezes lá. A Usina Velha é um lugar histórico frequentado por alguns fãs de rock da cidade.

No dia 7 de abril, aconteceu o Eu Quero É Rock 3, ao lado do Restaurante Paladar, num salão de eventos. Tinha muita gente, o lugar estava lotado. Centenas de latinhas de cerveja espalhadas. Uma das bandas era a Relespública, de Curitiba. No evento, também tocaram as bandas 200ml, Capitan Bado, Dixavantes e Across. Na época, eu nem imaginava que um dia moraria em Curitiba. Aliás, até quando conheci a banda Zigurate no Orkut, não passava pela minha cabeça que um dia eu os veria pessoalmente.

No dia 22 de abril, aconteceu mais um Brutal Metal Attack, na quadra da UFGD, o mesmo lugar da Mostra de Cultura Punk. Tocaram as bandas Espectros Quasar e Joana Dark, de Dourados, e a banda Gangrena, de Ponta Porã.

Marcos Zumbi, vocalista do Espectros Quasar, me deu um exemplar do primeiro Comando Metal Zine. Cláudio Possessed, outro integrante da banda, me deu a demo deles. O Comando Metal Zine aborda a cena rock do Mato Grosso do Sul, trazendo informações sobre shows, entrevistas e resenhas de demos e álbuns.
Uma noite, eu estava em casa quando ouvi um som alto que parecia música ao vivo. Era algo que soava como rock, então calcei meu tênis e saí para a rua. Fui seguindo o som e descobri que estava rolando uma apresentação num posto de gasolina. Quem tocava lá era a banda Hand of Doom, um cover de Black Sabbath. Era uma reunião de motociclistas, e eu encontrei a galera no posto. Fiquei até o final da apresentação, foi algo realmente incrível e memorável.
Uma tarde, o pessoal se reuniu no Parque dos Ipês, e algumas bandas foram tocar lá. Foi uma apresentação acústica, só com violões. Depois que o evento terminou, eu fui à casa de um amigo junto com outros amigos que eu tinha na época. O Parque dos Ipês também é um lugar muito importante pra mim, onde passei muitas tardes tomando tereré com amigos que jogavam basquete na quadra. Alguns poetas de Dourados fizeram um jornal de poesia chamado Infinito Longe, e eu tenho o primeiro e o segundo exemplares. Também ganhei do desenhista Van Jader uma história em quadrinhos que ele desenhou chamada Oceano de Ilusões, que inspirou uma das músicas do Pantanu.
Considerando que até hoje curto rock e mantenho contato com pessoas daquela época, aqueles acontecimentos foram determinantes. Moldaram quem sou, ensinando-me a valorizar música, amizade e liberdade, coisas que carrego comigo. Shows e instantes inesquecíveis ficaram gravados na memória, trazendo saudade. Aquelas bandas, zines e shows improvisados formavam o coração de uma cena pequena, mas potente, e fico feliz de ter feito parte dela. Isso é minha nostalgia, uma fase que jamais esquecerei.